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GOVERNO DE BOLSONARO APROVEITA COVID-19 PARA AGRAVAR POLÍTICA DE APARTHEID NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

  • Foto do escritor: TXV
    TXV
  • 15 de mai. de 2020
  • 4 min de leitura

RDD/Mundonegro (*) - 15/maio/2020


Mesmo depois de manifestações pedindo o adiamento das provas, o Ministério da Educação do Brasil comunicou a abertura das inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2020 que acontecem até o dia 22 de Maio.



Para coletivos de estudantes e educadores do ensino público, e até para Secretários da Educação, o exame deveria ser adiado por conta dos prejuízos que alunos de escolas públicas estão sofrendo devido a pandemia da COVID-10.


Dos milhares de alunos que estão tendo aula em casa, estima-se que 30% - residentes em regiões periféricas e favelas, não tenha acesso a Internet.


Adriano Sousa, coordenador de núcleos da Uneafro na região de Sapopemba e São Mateus, Professor de história e Historiador, dá um panorama da situação dos alunos de escolas públicas do Estado de São Paulo e os subsídios oferecidos pelo Governador João Dória.


“Basicamente (temos) algumas vídeo-aulas em uma plataforma que deve ser adequada ao plano de aula do currículo por cada professor. A grande acessibilidade é a TV onde estão veiculadas essas aulas. O que não é suciente. Já que o que prejudica mais, são as diculdades na rotina diária que muitas famílias enfrentam. Em situação normal irmãos cuidam de irmãos, pais com baixa escolaridade pouco conseguem acompanhar os estudantes por conta do trabalho. Em uma situação de pandemia, em que tudo isso piora e a fome e a doença ameaçam, tudo isso fica pior”, explica o professor.


As aulas na TV podem ser assistidas TV EDUC, Cultura, UNIVESP, porém Adriano ressalta que essas metodologias não são sucientes para colocar alunos de escolas públicas em pé de igualdade com os de escolas privadas em tempos de aulas à distância.


“A maioria das pessoas que passam por essas diculdades que falei são de famílias pretas aqui da quebrada. Inclusive nosso cursinho perdeu muitos estudantes nesse processo de não ter um lugar especíco pra estudar no pré. Poucos acessam nosso Zoom e nosso Classroom. Já tive aluno que só estudava no horário do cursinho. Então pensamos que o melhor é adiar o ENEM pra que nossos estudantes tenham tempo presencial de estudo no ensino regular e na educação popular quando voltarmos da quarentena”, disse o historiador.


Para Anielle Franco, Mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Carolina do Norte nos EUA, graduada em letras pela UERJ e professora do Ensino Médio no Rio de Janeiro, manter a realização do exame é uma decisão política.


“Como professora eu acredito muito que o interesse de se manter essa prova faz parte de um projeto político. É mais uma maneira de boicotar o acesso dos jovens negros favelados e periféricos nesse governo genocida que a gente tem aí”, aponta Anielle.


A professora ainda contextualiza o momento da prova com os desaos da educação em tempos de pandemia. “Em um país passando de 11 mil mortes , com pessoas que moram em favelas, comunidades em lugares tão precários sem acesso à Internet, a gente vê que nas escolas públicas que têm aulas online, a adesão de alunos é pequena. Então qual o interesse em manter essa prova? No meio

de uma pandemia, com tanta gente morrendo?”, indaga a ativista.


SEM AULA, SEM ENEM


Alguns movimentos de estudantes, incluindo os com foco em alunos negros carentes, criaram o “Sem aula, Sem Enem” (https://www.semaulasemenem.org.br) um site que dá apoio para quem quiser aderir à campanha de adiamento do ENEM 2020.


EXPLICANDO EM MIÚDOS


O coletivo Potências Negras usou o Twitter para se posicionar e elencar os motivos pelos quais o ENEM precisa ser adiado:


“1- A pandemia deixou toda população vulnerável. O Brasil se tornou o epicentro da doença. Não se pode pensar em Enem, quando estamos contando mortes!


2 – Cerca de 30% dos lares brasileiros não tem acesso à internet.


3 – Problemas estruturais, como falta de professores na rede pública de ensino, foram agravados com a suspensão necessária das aulas presencias durante a pandemia.


4 – Parte dos jovens brasileiros teve um ensino médio precário, assim cursos presenciais preparatórios dia fundamentais, o que não será possível devido a pandemia.


5 – Sem a previsão de término do isolamento social, não se sabe as condições de logística e estrutura para a realização das provas em novembro, além da aglomeracao que será promovida pela execução da prova.

6- Sem a possibilidade de realizar a inscrição presencial, muitos jovens carão de fora do processo.


7- Além da falta de Internet, muitos estudantes da rede pública não dispõem dos materiais didáticos necessários para a preparação desse vestibular. A falta desse recursos só deixa mais evidente a

necessidade da aula presencial.


8- Com a pandemia, muitas famílias estão sem condições nanceiras para arcar com gastos como a taxa de inscrição.


9- Uma parcela de jovens em isolamento social não tem, no espaço domiciliar, ambiente adequado que possibilite o estudo.


10 – Entre os 5% com as melhores notas em 2019 (um grupo de 171,8 mil alunos), apenas 0,5%, ou 919 pessoas, era de baixa renda. Esse dado demonstra que o ENEM vem priorizando a falsa ideia de meritocracia, escancarando a desigualdade social. A realização do exame nas atuais condições pode aprofundar esse quadro.


11- Falta de clareza no método de realização das provas e incerteza quanto ao momento de reunir aglomerações.


12 – As pessoas que não têm acesso à internet vão sair de casa como, se estamos em isolamento social e só serviços essenciais estão abertos?


13 – em 2019 sem pandemia, o atual governo já apresentou inúmeras diculdades para realizar o exame. Em uma conjuntura de pandemia o governo tem certeza da condição que nem apresentaram

proposta ainda para?


14 – 59% das pessoas que zeram o exame eram mulheres – também responsáveis pelos trabalhos domésticos.


15 – Realizar o Enem quando a maior parte da população não tem condição de se preparar adequadamente é retomar um cenário de exclusão de pretos e pobres das universidades.


16 – Quem tem medo de gente preta e pobre na universidade?


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(*) Fonte: mundonegro.inf.br / Título original “Realização do ENEM 2020 expõe o apartheid educacional no Brasil”, de Silvia Nascimento.

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