ESCÂNDALOS PASSADOS FAZEM AFRICANOS DESCONFIAR DE VACINAS OCIDENTAIS CONTRA O CORONAVÍRUS
- TXV
- 7 de mai. de 2020
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RDD (*) - 07/Maio/ 2020
Enquanto os cientistas estão envolvidos num contra-relógio para desenvolver tratamentos para o coronavírus, na África a desconfiança das vacinas ocidentais é um fato compartilhado nas redes sociais. Publicações alertam contra vacinas "envenenadas" que são secretamente testadas ou injetadas nas populações locais.

No início de abril, publicações virais na África Ocidental alegaram que sete crianças haviam morrido no Senegal depois de receber “a vacina Bill Gates”. Descobriu-se que é um boato que começou como piada de um comerciante de cosméticos do subúrbio de Dakar, a capital senegalesa.
Em outro vídeo compartilhado dezenas de milhares de vezes na Côte d’Ivore, uma mulher que se apresentava como enfermeira diz que os centros de triagem seriam usados para vacinar a população, sem o seu conhecimento, por via nasal.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) é acusada regularmente nessas publicações virtuais de ser a ala armada das potências ocidentais e da indústria farmacêutica. Mas a Organização garante que a África não seja um campo de experimentos perigosos.
"Eu realmente quero garantir às pessoas que os ensaios clínicos atualmente em andamento no continente atendem aos padrões internacionais e seguem os mesmos protocolos de outros países desenvolvidos", disse o chefe do programa de imunização e desenvolvimento de vacinas da OMS na África, Richard Mihigo.
No momento, o continente africano é um dos menos afetados pela pandemia, com 2.007 mortes em 51.569 casos oficialmente listados em 7 de maio, segundo uma contagem feita a partir de dados oficiais.
UMA LONGA HISTÓRIA DE DESCONFIANÇA
"Há uma longa história de desconfiança em vacinas na África", disse Keymanthri Moodley, diretor do Centro de Ética e Direito da Medicina da Universidade de Stellenbosch (África do Sul).
Há lembranças de vários escândalos médicos que marcaram o continente.
Na África do Sul do apartheid, o sinistro "Doctor-The-Death" Wouter Basson, que dirigiu o programa de armas químicas e biológicas do governo na década de 1980 e no início da década de 1990, havia trabalhado em um projeto - que não obteve sucesso - de esterilização de mulheres negras por substâncias que tiveram que ser injetadas por meio de vacinas.
Na Nigéria, na virada dos anos 2000, a gigante farmacêutica Pfizer pagou 75 milhões de dólares em troca do arquivamento de processos legais, depois de acusações de testar um medicamento contra meningite, em 1996, sem o conhecimento da população.
A firma norte-americana alega ter obtido o acordo verbal das famílias, que negam que a droga, Trovan, seja responsável pela morte de pelo menos onze crianças e danos fisiológicos causados em outras 189.
As revelações de vários casos de drogas anti-HIV fraudulentas em todo o continente também "alimentaram forte ressentimento contra políticos e alguns cientistas", disse o diretor do Centro de Ética e Direito da Medicina da Universidade de Stellenbosch (África do Sul), Keymanthri Moodley.
SOLUÇÕES LOCAIS
"Em vez de dissipar esses medos, chamando-os de "rumores falsos" ou "conhecimento falso", eles devem ser ouvidos e reconhecidos", disse Sara Cooper, pesquisadora do Conselho de Pesquisa Médica da África do Sul.
Segundo ela, pesquisas realizadas por cientistas africanos em vez de programas estrangeiros "poderiam ajudar a restaurar a confiança coletiva e reduzir a oposição".
Remédios locais anti-coronavírus baseados em plantas da farmacopeia tradicional são muito bem-sucedidos, mesmo que sua eficácia não tenha sido comprovada cientificamente, como o chá de ervas feito com artemísia lançado no final de abril pelo presidente de Madagascar Andry Rajoelina.
(*) Com Jeuneafrique
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