“SAPEURS”: TRAJAR COM ESTILO NO CONGO. RUAS DE TERRA BATIDA E BAIRROS DE LATA SÃO AS SUAS PASSARELAS
- TXV
- 7 de out. de 2020
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TXV(*) – 07/outubro/2020

"Sapeurs": As vestes coloridas dos “dândis” contrastam expressivamente com a pobreza cinzenta das suas cidades.
O fotojornalista londrino Tariq Zaidi, mais uma vez, mostra porque tem merecido tantos prêmios. Seu livro “Sapeurs: Senhoras e Senhores do Congo” (Sapeurs: Ladies and Gentlemen of the Congo), que acaba de ser lançado, vem recebendo elogios da crítica. E, realmente, não é por pouco.
O próprio profissional explica que as imagens da sua obra foram feitas nas ruas de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo –RDC, e nas ruas de Brazzaville, capital da República do Congo. Este é o único lugar no mundo onde duas cidades, capitais de dois países, estão situadas em margens opostas de um rio – o Rio Congo – uma de frente para a outra. Para distinguir bem os dois países, tomando suas capitais como referências, um tem o apelido de Congo-Brazzavile e o outro de Congo-Kinshasa.
Tariq Zaidi diz que sua série de fotografias é “sobre pessoas que fazem parte de uma subcultura da moda no Congo”, chamada La SAPE (Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes). Em português seria Sociedade de “Ambientistas” (no sentido de criadores de moda) e Pessoas Elegantes. Os homens seguidores do “la SAPE” são conhecidos como “Sapeurs”; e as mulheres, “Sapeuses”.
O livro do fotojornalista revela essa nova geração de “dândis” do Congo. “Dândis” é outro nome que recebem localmente os “sapeurs”. Há um espaço unindo Brazzaville e Kinshasa, onde velhos e novos, de várias profissões, partilham o gosto pela arte de trajar com estilo. As ruas de terra batida e os bairros de lata são as suas passarelas.
As vestes coloridas dos “dândis” contrastam expressivamente com a pobreza cinzenta das suas cidades. Vestir bem, para estes homens e mulheres, é um estilo de vida, uma espécie de religião, ou até mesmo um vício. Além disso é também um acto de rebeldia contra a estrutura socioeconómica que os condena à pobreza.
As roupas caras e exuberantes dos “sapeurs” se destacam no cenário de pobreza em que estão inseridos. Eles são, por isso, percepcionados, no seio das suas comunidades, como celebridades, personalidades que iluminam um quotidiano lúgubre e cinzento.
Com peças de vestuário da Hugo Boss, Yves Saint Laurent, Giorgio Armani, Chanel, Dolce & Gabbana, Versace ou Louis Vuitton os “dândis” conquistam a atenção de todos nas ruas das duas cidades capitais.
“São uma visão extraordinária”, disse Tariq Zaidi, numa entrevista. As próprias fotografias não o deixam mentir. “Vestidos com palitós vistosos de dois mil dólares (quase 12 mil reais), acompanhados de papillons, chapéus fedora e guarda-chuvas, eles ostentam as suas riquezas pelas estradas de terra, debaixo de um calor de 40 graus. E são, literalmente, seguidos na rua por muitas pessoas, que os admiram. São muito respeitados”, conta o britânico.
Na República Democrática do Congo, o "rendimento médio, por habitante, em 2018, era de 900 dólares”, refere Zaidi. “O que coloca em perspectiva a compra de uns sapatos de pele de crocodilo de 1300 dólares.”
Os congoleses são conhecidos por cuidarem muito da sua aparência. Diz um ditado local que “é melhor vestir bem do que comer bem”. Mas “La SAPE” leva o “bem vestir” para um outro nível.
Segundo o fotógrafo, o “sapeur” médio está longe ser um homem ou uma mulher de posses: “Eles têm empregos comuns e ganham muito pouco dinheiro ao final do mês. Poupam aqui e ali e podem demorar anos juntando dinheiro suficiente para comprar um palitó”. Ainda assim “preferem gastar 100 ou 200 dólares numa camisa do que poupar para comprar uma casa, um carro, uma moto. A sua prioridade é ter um aspecto fabuloso a qualquer o custo”, explica Zaidi. Por isso, não é de estranhar que o “sapeur” frequentemente se endivide para conseguir adquirir roupa.
Kinshasa e Brazzaville, embora separadas por um rio, mas unidas por “La SAPE”. E seus estilos, no entanto, divergem. Se em Brazzaville, existe uma preferência pelo estilo francês de vestir, em Kinshasa “vale tudo”. “Desde quimonos japoneses a kilts escoceses”, explica Zaidi.
“A verdadeira 'sapologia' não gira apenas em torno de roupas de marcas caras — embora não seja considerada uma boa prática comprar artigos de contrabando: a verdadeira arte reside na capacidade de um ‘sapeur’ combinar a sua personalidade com o seu traje.”
O britânico acredita que “La SAPE” transmite uma mensagem importante que é, por vezes, desconsiderada. “O sapeur diz ao mundo que, independentemente de onde nasceu e de onde vive, ele também pode ter um ‘look” incrível se assim desejar. Desta forma, traz esperança e alegria a comunidades que sofreram anos de violência e conflito. ‘La Sape’ é uma forma de activismo, uma inversão do poder, um ato de rebeldia contra as condições económicas a que os congoleses estão sujeitos.” La Sape é e sempre foi, mesmo na sua génese, sinónimo de rebeldia.
O movimento nasceu nos anos 20 do século XX, quando a RDC era ainda colónia belga. Para os congoleses, então subjugados, vestir bem era uma forma de desafio à superioridade colonial. “Os empregados congoleses desdenhavam das roupas dos seus empregadores ricos e europeus e, apesar dos seus baixos rendimentos, passaram a consumir artigos luxo [desafiando assim o seu estatuto]”.
O movimento ganhou força após a conquista da independência do país africano, das garras da Bélgica, nos anos 60, e quase foi banido nos anos 80. Mais recentemente, ressurgiu com novo fôlego e hoje “sapeurs” de todas as idades reúnem-se em cafés e bares específicos das duas cidades para conversar, dançar, exibir roupa e competir, de forma saudável, pelo título de “sapeur”, “sapeuse” ou “mini-sapes” mais bem vestido.
No entendimento de Tariq Zaidi , “La Sape” está em crescimento global graças à sua exuberância e à liberdade de expressão que permite: “Será interessante ver para onde as novas gerações de ‘sapeurs’ e ‘sapeuses’ vão levar este movimento.”
SOBRE TARIQ ZAIDI
É um fotógrafo britânico freelance, que atualmente mora em Londres, Reino Unido. Em janeiro de 2014, ele desistiu de um cargo de gestão executiva para seguir sua paixão de fotografar a dignidade, a força e a alma das pessoas em seu ambiente. Sua fotografia se concentra em documentar questões sociais, desigualdades, tradições e comunidades ameaçadas de extinção em todo o mundo.
As histórias, imagens e vídeos de Tariq vêm de diversos países: Afeganistão, Angola, Brasil, Camboja, Chade, RDC, El Salvador, Etiópia, Geórgia, Haiti, Indonésia, Mongólia, Coreia do Norte, República do Congo e Sudão do Sul. E já foram apresentados internacionalmente em mais de 900 revistas / jornais / sites (em mais de 90 países).
(*) Com publico.pt e plataforma
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