RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS “JEJUAM” PELA ERRADICAÇÃO DO CORONAVÍRUS
- TXV
- 1 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Arthur Lamounier Mendonça e Rejiane Mendes (*)
Longe dos terreiros, seguidores de candomblé, umbanda, quimbanda e outros cultos buscam a manifestação de suas divindades perante o desafio da pandemia da covid-19.

Com o isolamento determinado pelo governo, os devotos estão unidos por meio
de orações e pela fé, rogando para as divindades por uma intercessão.
O mundo todo se encontra em uma pandemia de um vírus (Covid-19) que surgiu na China e está matando milhares de pessoas. Diante dessa situação de alto risco, as religiões afro-brasileiras suspenderam todo o calendário litúrgico e as atividades abertas ao público nos terreiros. Isso porque a contaminação é rápida e agressiva, principalmente em espaços com maior aglomeração.
Mesmo com o isolamento determinado pelo governo, os devotos estão unidos por meio de orações e pela fé, rogando para as divindades por uma intercessão frente a dificuldade social em que vivemos, a fim de que ela aconteça de forma branda.
Dentro dos cultos como o candomblé, umbanda, quimbanda, entre outros, é necessária uma reverência diária e de rituais semanais.
No contexto do candomblé, a reverência diária consiste em entoar jingoloxi (rezas específicas), saudações e até muimbu (cantigas) para cada nkisi / orixá, que podem ser feitas em casa. Esse contato é fundamental para que se mantenha o pensamento firme diante do caos e uma boa conexão com seu sagrado.
Os minkisi (pl. nkisi) são seres sábios e éticos e entendem a impossibilidade e limitação dos seus filhos que não podem estar no nzo (casa). Os rituais semanais são feitos para uma manutenção e renovação do nguzu (axé) do espaço litúrgico. É onde se organizam as oferendas que são feitas em prol de toda comunidade, material e imaterial.
No candomblé angola/congo, os minkisi que são ligados a doença, a saúde e a cura são: Nsumbu, Kavungu, Kafungê, Kikongo, Nzumbarianganga, Katendê, etc. Esses minkisi estão sendo cruciais na conjuntura atual, para assegurar a saúde mental, espiritual e o bem-estar dos adeptos.
Através de makudiá (comidas) que são colocadas diante dos kuxikama (assentamentos) e orientam um pedido e uma troca entre as partes envolvidas; no intuito de ativar essa força sobrenatural do nkisi.
Essa manipulação exige uma preparação singular por parte do sacerdote / sacerdotisa para “encantar” o ambiente e as makudiá. Cabe a ele (a) fazer a comunicação com as divindades e decidir qual delas será chamada para ocasião, com a proposta de afastar a doença, a morte prematura e a desgraça.
Para além da ciência, na tradição bantu, as doenças são vistas como uma manifestação negativa do mundo espiritual, uma incongruência entre o mpemba (mundo dos mortos) e o nseke (mundo dos vivos); segundo MacGaffey (1991, p. 9): “De fato, a terra invisível dos mortos é idêntica e, no entanto, oposta àquela dos vivos – próximos e distantes; cênico e ainda surreal, mas sem a dor e a desordem associada ao mundo visível”.
Por isso a existência dos minkisi tem a função de manter o equilíbrio entre esses dois mundos. Na África bantu (Subsaariana), os minkisi tinham uma imensa influência na sociedade, na cultura e na política, e estavam diretamente ligados nas tomadas de decisões no âmbito da economia, saúde, justiça.
Para cada doença do corpo e do espírito existia um determinado nkisi que era usado como remédio para curar e preservar a saúde de toda a sociedade; e foram trazidos para o Brasil com algumas ressalvas, pois, a influência cristã e indígena moldou o culto sem perder o seu aspecto ancestral de cura, prosperidade, defesa, ataque e divinação.
Apesar de todo esse suporte místico, cada iniciado deve fazer o seu papel e não se arriscar, considerando que a fé e a proteção o possam proteger de tudo. O bom senso e a prudência devem prevalecer. Sair de casa o mínimo possível, lavar as mãos com frequência, usar máscaras, não dar abraços e beijos e acatar as ordens da comunidade médica são fatores importantíssimos para preservar a sua própria vida e a dos outros.
Visto que isso não enfraquece a crença ou a interação dos adeptos com os minkisi, os orixás ou os guias de umbanda/quimbanda. Pelo contrário, uma vez que tais mudanças de comportamentos podem, de forma subjetiva, permitir aos adeptos introspecções singulares sobre sua fé, diante a sua prática devocional ritualística e a atualidade vivida.
Logo, o que a religiões afro-brasileiras buscam neste momento é uma manifestação de suas divindades perante o desafio pandêmico. Com efeito, pedem a Kafungê e Katendê que nos orientem, adeptos ou não, pertencentes aos diferentes estratos sociais, a responsabilidade para consigo e para com outro, no que diz respeito a continuidade de vida, seu bem maior.
(*)Publicado no domtotal.com com o título original “Religiões afro-brasileiras bantu em tempos de Covid-19”. Por Arthur Lamounier Mendonça (estudante de Ciências Sociais) e Rejiane Mendes (graduada em Serviço Social e mestranda em Ciências da Religião).
Referências: Bunseki, Fu-Kiau. African Cosmology of the Bantu-Kongo: Tying the Spiritual Knot, Principles of Life & Living. EUA: African Tree Press, 2014.
Bockie, Simon. Death and the Invisible Powers: The World of Kongo Belief. EUA: Indiana University Press, 1993.
MacGaffey, Wyant. Art and Healing of the Bakongo, commented by themselves: Minkisi from the Laman collection (Monograph series). EUA: Indiana University Press, 1991
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