PESQUISADORA AFRO-BRASILEIRA SE DESTACA NO ESTUDO DO GENOMA DO CORONAVÍRUS
- TXV
- 7 de mar. de 2020
- 2 min de leitura
07/Março/2020
O sonho inicial era trabalhar com laboratório. Mas, quando a então estudante Jaqueline Góes, 30 anos, entrou na faculdade de Biomedicina na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, em 2008, as coisas mudaram. “Eu nem imaginava que ia para pesquisa. Mas, quando entrei, a única coisa de laboratório que me interessou era análise clínica”, lembra.

A pesquisadora Jaqueline Góes.
No inicio de Março, Jaqueline foi parar nas manchetes dos jornais justamente pela pesquisa: mais especificamente por ter sido uma das pesquisadoras responsáveis pelo sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil.
O grupo liderado por ela e pela pesquisadora Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Universidade de São Paulo (USP), chamou atenção pela rapidez: os cientistas conseguiram analisar o material genético em pouco menos de 48 horas, ao lado do Instituto Adolfo Lutz e de pesquisadores da Universidade de Oxford, da Inglaterra. O mesmo processo, em outros países, pesquisadores chegaram a demorar 15 dias.
“Essa semana foi uma loucura”, admitiu ao CORREIO. Em São Paulo, onde mora hoje para fazer o pós-doutorado no IMT, Jaqueline tentava equilibrar a rotina de pesquisadora – que passa das 12 horas de trabalho por dia – com os pedidos de entrevista. Encaixou a conversa entre outra entrevista e a participação em uma banca de monografia de um curso de especialização.
“Me sinto privilegiada de ter conseguido chegar nessa etapa da vida. A ciência não é fácil. A gente passa por muitas situações complicadas que nos fazem querer desistir, mas, com o auxílio da família, persisti e estou aqui”, disse.
Ainda na faculdade, no terceiro semestre, Jaqueline participou de uma seleção para ser bolsista de iniciação científica. O desempenho dela foi tão bom que uma professora a convidou para participar de um projeto na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-BA).
Jaqueline entrou num grupo de pesquisa naquela época e ficou até o ano passado, quando defendeu a tese de doutorado sobre vigilância genômica de arboviroses, na Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Quando terminou o doutorado, recebeu uma sugestão do orientador: que buscasse algo fora da Bahia, talvez até fora do país. Ele defendia algo que muitos pesquisadores acreditam: que, na ciência, é preciso mudar de grupos de pesquisa e mesmo de orientação para abrir novos horizontes.
Como pesquisadora ela ja vem trabalhando em projetos ligados a febre amarela, a zika e ao chikungunya. “A gente tem expertise nessa área. Quando soubemos do coronavírus, já começamos a nos preparar e a pensar nos reagentes e coisas específicas para o vírus”.
Quando o primeiro registro foi confirmado em São Paulo, o material genético foi enviado ao Instituto Adolfo Lutz para que fosse feita a contraprova. Foi quando o grupo de Jaqueline foi convidado a ajudar no sequenciamento. “Nós levamos a nossa tecnologia, porque eu já trabalhava com isso, mas com a dengue”, diz. Em 48 horas, o sequenciamento estava pronto.
“Fazer o sequenciamento, de fato, consiste basicamente em você descobrir a ordem de bases nucleotídicas presentes no genoma daquele vírus, ou seja, decodificar o vírus presente naquele paciente. Isso permite comparar com sequências da China, da Alemanha... Isso mostra como o vírus está circulando e permite tomar providências em relação à saúde pública”.
Baiana de Salvador, Jaqueline, no doutorado, estudou na Inglaterra por seis meses. A vida era sem luxos, mas os pais sempre investiram na educação.
Correio24horas.com
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