JESUS NEGRO? : UM OLHAR SOBRE SEIS “ENCARNAÇÕES” AFRO-CRISTÃES
- TXV
- 10 de abr. de 2020
- 7 min de leitura
N. Talapaxi S. /RDD (*)
Desde que o tempo foi dividido em “antes” e “depois” de Cristo o mundo tem conhecido uma gama de pessoas que foram reivindicadas, por si ou pelos seus seguidores, de alguma forma como sendo encarnações ou reencanações de Jesus; pessoas aludidas como “segunda vinda” de Cristo.

André Matsoua (Congo/RC), “Father Divine” EUA), Haile Selassie I (Etiópia), Olumba Olumba Obu (Nigéria), Simão Toco (Angola) e Yahweh Ben Yahweh (EUA).
Outras têm sido consideradas simplesmente como novos messias sob o guarda-chuva do cristianismo. A Bíblia Sagrada é a base de todas essas alegações, pois nela está escrito que Jesus Cristo voltará de alguma forma - promessa feita por ele mesmo (Mateus 24:4, 6, 24; Marcos 13:5, 21-22; e Lucas 21:3).
Aqui estão listadas algumas figuras afro-cristães que fazem parte dessa gama de pessoas. Independente de serem ou não “encarnações” de Jesus ou manifestações de Messias - até porque acreditar nisso depende de uma condição abstrata muito pessoal, que é a fé - essas seis personalidades fizeram história e estão destacadas nos anais da história dos seus povos.

ANDRÉ MATSOUA (CONGO/RC)
André Matsoua Grenard, para boa parte dos observadores da sua trajetória, era mais um líder político do que muitos de seus seguidores negam, na medida em que o endeusaram. Nasceu em 17 de Janeiro de 1899 quando seu país (República do Congo - RC) era chamado de Médio Congo, então colónia francesa. (Não confundir: a RC, cuja capital é Brazzaville, foi colônia da França. O outro Congo, é a República Democrática do Congo - RDC, cuja capital é Kinshasa, e que foi colônia da Bélgica). Ex-catequista católico, Matsoua foi morar na França em 1921, alistou-se no exército francês e após uma guerra em Marrocos deixou o exército e se engajou na luta contra o colonialismo. Fundou a Associação de Amigos dos Originais da África Equatorial Francesa (AEF) em 1926, em Paris, para ajudar os negros na França e exigir a independência das colônias da AEF (Gabão, Médio-Congo, Oubangui-Chari e Chade). Passou então a ser visto, perseguido e combatido, como anti-francês e comunista; sendo considerado feiticeiro na tentativa de jogá-lo contra seus próprios correligionários. Após sua morte, em 13 de janeiro de 1942, seu movimento deu origem, em 1945, ao matsouanismo, um movimento messiânico e religioso, o que não impediu que seus seguidores (matsouanistas), continuassem a luta anticolonial. Apesar das perseguições às quais foram submetidos, os matsuanistas permaneceram fiéis aos seus ideais, sem mudar nem um pingo a profissão matsouanista de fé. Embora fosse uma figura extraordinária, a frente do seu tempo, André Matsoua não era um profeta; foi um homem que primeiro pôs em prática suas palavras e depois agiu de acordo com suas convicções, inclusive as religiosas.

“FATHER DIVINE”, (EUA)
O Father Divine (Pai Divino) foi um líder espiritual afro-americano, desde cerca de 1907 até à sua morte. Era conhecido como Reverendo Major Divino Ciumento, “O Mensageiro”. Fundou o movimento Missão Internacional de Paz, formulou a sua doutrina e supervisionou o seu crescimento; transformando uma pequena e predominantemente congregação negra numa igreja multirracial e internacional. Father Divine contribuiu para a independência econômica de seus seguidores e para a igualdade racial. Pouco se sabe sobre a sua vida antes de 1907, inclusive sobre o nome verdadeiro. Recusou que escrevessem sua biografia e também se recusou a reconhecer o relacionamento com qualquer família. Pesquisadores constataram que ele tenha nascido 1876, acham que nome verdadeiro é George Baker e que provavelmente é descendente da Geórgia. E concordam que os pais dele foram escravos libertos. Father Divine morreu em 10 de Setembro de 1965 tendo deixando um legado sempre referenciado já que defendia mudanças progressivas nas relações raciais. Ele acreditava que os EUA era o berço do “Reino de Deus”, que acabaria por englobar as verdades de todos os princípios religiosos, promovendo a igualdade e a fraternidade. Seu movimento esforçou-se por aliviar a pobreza alimentando os pobres e através da educação; Assim como defendeu e promoveu uma auto-suficiência económica.

HAILE SELASSIE I (ETIÓPIA)
Hailé Selassié I nunca disse ou afirmou ser Jesus e desaprova as alegações de que ele era Jesus. Nasceu em 23 de Julho de 1892 em Ejersa Goro, no Leste da Etiópia; foi batizado como Tafari Makonnen e, posteriormente, chamado por Rás Tafari. Era tido como herdeiro de uma dinastia ligada ao Rei Salomão e à Rainha de Sabá. O movimento Rastafari, que surgiu na Jamaica durante os anos 30, divulgou e consagrou a crença de que Selasseié era a “segunda vinda” de Jesus Cristo, mas muitos o consideram apenas uma pessoa iluminada, que nasceu para ensinar regras e compartilhar uma ideologia. Somando adeptos praticantes do movimento rastafári e os seguidores do seu estilo de vida, o número de “devotos”, a nível mundial, é de cerca de dois milhões. Selassié também é chamado de H.I.M., que significa “Sua Majestade Imperial” (do inglês: His Imperial Majesty). Foi regente da Etiópia de 1916 a 1930 e imperador de 1930 a 1974. O fato de se tornar Imperador foi visto pelos “rastas” como confirmação do retorno do Messias, segundo o livro profético de Apocalipse (5:5) do Novo Testamento da Bíblia Sagrada. Moreu em 1975.

OLUMBA OLUMBA OBU (NIGÉRIA)
Olumba Olumba Obu nasceu em 1918, em Biakpan, uma aldeia em Biase (Cross River State), sul da Nigéria. Conta-se que fez milagres desde o nascimento. Seu movimento religioso “Brotherhood of the Cross and Star” - BCS(Irmandade da Cruz e Estrela) foi oficialmente fundado em 1956. Difere do cristianismo dominante por sustentar que a BCS não é uma igreja, mas o novo Reino de Deus na Terra. Olumba Olumba Obu (pai), o fundador, é considerado o Espírito Santo personificado; deixou o cargo em 1999, substituído pelo filho. Olumba Olumba Obu (filho) é o Jesus Cristo devolvido. O BCS incorpora no ensino cristão ideias de encarnação, reencarnação e religiões tradicionais africanas. A crença central é o amor entre os homens. Entretanto, entende-se que Jesus não teve tempo para comunicar plenamente suas crenças antes da crucificação, e o papel de Obu (o pai e depois o filho) tem sido explicar, expandir e acrescentar os ensinamentos de Cristo. Além da Nigéria, Obu tem seguidores - calculados em mais de um milhão - em muitos países africanos (Ghana, Togo, Côte d’Ivore, Libéria, Serra Leoa e Uganda), na Europa (Reino Unidos) e nos EUA.

SIMÃO TOCO (ANGOLA)
Simão Gonçalves Toco nasceu em 1918 em Sadi-Zulumongo, província do Uíge, no Norte de Angola. Em 1942 ele atravessa a fronteira e vai para o Congo Belga (hoje República Democrática do Congo - RDC), onde na cidade de Leopoldville (hoje Kinshasa) colabora numa missão batista dirigindo um grupo coral de angolanos. O coral agigantou-se e suscitou um “bafafa” que fez com que os missionários batistas se voltassem contra ele, em conluio com as autoridades coloniais belgas. Em Julho de 1949, Simão Toco e os seus seguidores - chamados de tocoístas - fundam a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, que pupularmente ficou conhecida como Igreja Tocoísta; fato que não agrada nem os missionários nem os colonizadores. Os tocoístas, incluido Simão Toco, foram presos pelas autoridades belgas, sob a acusação de alterar a ordem pública. Em Janeiro de 1950, como eram angolanos, foram deportados do Congo Belga, sendo entregues na fronteira, às autoridades portuguesas. O movimento tocoísta afigurou-se perigoso no caminho das pretensões colonialistas, tanto dos belgas como dos portugueses. Na tentativa de extinguir o movimento o governo colonial português dispersou os seguidores de Simão Tôco pelo território angolano e outros domínios. O efeito foi inverso: ajudou a desenvolver e a expandir o tocoísmo por todo o país, disseminando a ideia de que Toco seria a esperança de “libertação” de um povo subjugado; a ideia de que Toco seria uma espécie de Messias. A ele coube a deportação para a Ilha de São Miguel, em Açores, um território de Portugal; o grande receio dos portugueses era que ele se transformasse no cabeça de um movimento político. Toco fico preso até que o regime fascista português foi derrubado pela Revolução dos Cravos. Então, depois de 11 anos Simão Toco deixou o desterro e voltou para Angola. Porém, após a independência de Angola, as perseguições aos tocoístas e ao seu profeta voltaram com toda carga, quer fosse por quaisquer ressentimentos ou pelo fato de o primeiro governo angolano, proclamado em 1975 pelo MPLA (partido que permanece no poder até hoje), sendo de orientação marxista, não se coadunar com as religiões. No final das contas, tanto as prisões belgas, as prisões coloniais portuguesas como as prisões e perseguições na pós-independência, fossem na tentativa de neutralizar o tocoísmo como de eliminar o seu fundador, só serviram para reforçar mais, de um lado, a fé e, do outro, os «mitos» que se desenvolveram a volta de Simão Tôco. Ele morreu em 1984, a igreja que fundou repartiu-se em vários grupos e expandiu-se para outros países. Calcula-se que seja cerca de um milhão o número de devotos. Toco nunca disse ser Jesus Cristo, mas muitos (ou a maioria) dos seus seguidores assim o consideram. Uma das denominações em que se repartir a sua igreja chama-o mesmo de Cristo Negro.

YAHWEH BEN YAHWEH (EUA)
Yahweh ben Yahweh é um afro-americano que nasceu com o nome de Hulon Mitchell Jr., em 27 de Outubro de 1935. O seu nome autoproclamado significa “Deus, Filho de Deus”, mas muitos dos seus seguidores o consideravam claramente como “Deus Encarnado”. Seu pai era pastor protestante e sua mãe era pianista da mesma congregação. Era de Oklahoma mas mudou-se para Atlanta, Geórgia, onde nos anos 60 entrou para a Nação do Islão (NOI) e atribuiu-se o nome de Hulon X. Como pregador cristão, chegou a Miami, Flórida, em 1978, onde fundou a Nação de Yahweh em 1979. Classificada como um ramo do movimento hebraico negro israelita, a doutrina de Mitchell enfatizava a crença de que Deus e todos os profetas da Bíblia eram negros e que os negros ganhariam o conhecimento da sua verdadeira história. Mitchell enfatizou a lealdade a si mesmo como o Filho de Deus e tinha uma legião de milhares de seguidores. Mais tarde foi acusado por crimes de extorsão e inocentado, mas foi condenado por outras acusações, tendo cumprido 11 anos de cadeia, de uma pena de dezoito anos. Suas actividades foram fortemente restringidas; proibido de se reconectar com a sua antiga congregação. Adoentado, faleceu em 7 de Maio de 2007.
(*) Com agências
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