CRESCENDO NEGRO NA ALEMANHA NAZISTA, A NOTÁVEL HISTÓRIA DE HANS MASSAQUOI
- TXV
- 19 de out. de 2020
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TXV(*) -19/outubro/2020

Massaquoi, então com 7 anos, foi persuadido a costurar uma suástica em seu casaco para mostrar o bom alemão que era. A mãe dele retirou a insígnia naquele mesmo dia.
“Tudo está bem quando termina bem”, escreveu Hans-Jürgen Massaquoi em suas memórias, nas quais descreve sua infância na Alemanha nazista. “Estou bastante satisfeito com a maneira como minha vida acabou sendo. Eu sobrevivi para contar o pedaço da história da qual fui testemunha. Ao mesmo tempo, desejo que todos tenham uma infância feliz numa sociedade justa. E esse definitivamente não foi o meu caso. ”
Muitas vezes, Massaquoi foi questionado sobre como ele foi criado na Alemanha nazista como um menino negro. Ele era neto do cônsul geral da Libéria em Hamburg. Nasceu nasceu em 1926. Seu pai, Al-Hajj Massaquoi, era um empresário liberiano. E sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira alemã.

Seu pai, Al-Hajj Massaquoi, era um empresário liberiano. E sua mãe, Bertha Baetz, era uma enfermeira alemã.
Como neto de um diplomata, Massaquoi não vivia uma vida como a maioria das crianças. Na realidade sua vida era mesmo de luxo. “Eu associava a pele negra a um status de superioridade, já que nossos empregados eram brancos”, disse Massaquoi sobre sua infância. “Meu avô era 'o cara'.”
O pai de Hans Massaquoi - Al-Hajj Massaquoi, não se preocupava muito por ele e não lhe dava a devida, já que era um estudante universitário em Dublin (mas isso não é desculpa). O menino foi acolhido pelo avô - o primeiro diplomata africano na Europa. E assim, Hans viveu num palacete junto com seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma liberiano com perfeição.
Mas as condições de Massaquoi mudaram quando seu pai e se avô voltaram para a Libéria, em 1929, depois que Hamburg se viu em um estado de turbulência política.
O menino e sua mãe ficaram na Alemanha. Apesar de não ganhar muito com o trabalho de enfermagem, Baetz, que não queria expor o filho ao clima tropical, decidiu não ir embora com o marido.
Tendo passado seus primeiros anos em uma villa, Massaquoi logo se viu em um apartamento de água fria num bairro de operários de Hamburg, ao lado de sua mãe. Mas o que o magoava era ser a "esquisitice do quarteirão". “Sempre fui apontado por causa dos meus ‘looks’ exóticos. Eu só queria ser como todo mundo ”, diz o que ele escreveu de sua memórias.

Hans com sua mãe, Bertha Baetz.
Em Hamburg, havia outros negros alemães, apenas alguns. Alguns eram filhos de tropas coloniais europeias que ocuparam a Renânia após a Primeira Guerra Mundial, segundo registros.
Na Alemanha nazista, havia cerca de 25 mil negros entre 65 milhões de habitantes. Eram um grupo pequeno demais para o Terceiro Reich se importar em exterminá-los sistematicamente como fazia com os judeus. Não eram vistos como uma real ameaça.
Tendo crescido na Alemanha nazista, Massaquoi queria ser como os outros meninos de sua classe a ponto de pedir para ingressar no Movimento da Juventude Hitlerista em sua terceira série, mas foi negado em grande parte porque ele era "não-ariano".
Era uma tarde de 1934. A professora anunciou aqueles que haviam sido aceitos na Hitlerjugend – a Juventude Hitlerista. Todos da sua sala foram aprovados, exceto ele. Indignado, Massaquoi tentou argumentar: “Mas eu sou alemão!” Não adiantou, ouviu dizer que não era digno. Ele tinha apenas 8 anos.
Para os nazistas, a raça ariana (o povo nórdico da Alemanha, Inglaterra, Dinamarca, Holanda, Suécia e Noruega) é pura e não deve ser misturada com nenhuma outra raça.
Massaquoi disse sobre o Movimento da Juventude Hitlerista: “Eles tinham uniformes legais e faziam coisas emocionantes - acampamentos, desfiles, tocar bateria”.
Em 1933, quando o Partido Nacional Socialista ascendia ao poder, Massaquoi, então com 7 anos, foi persuadido a costurar uma suástica em seu casaco para mostrar o bom alemão que era. A mãe dele retirou a insígnia naquele mesmo dia, mas o momento ficou eternizado pelas mãos dos professores de Massaquoi – único garoto negro em meio a crianças brancas, e único a usar o símbolo nazista.
Ao engatar um romance com uma garota branca, teve que esconder de todos. Relacionamentos interraciais eram, naturalmente para a Alemanha Nazista, proibidos – e, para piorar, o pai da moça era policial e membro da SS.
Em sua autobiografia, Massaquoi conta como estava caminhando com ela um dia e foi preso pela Sicherheitsdienst (SD) sob suspeita de “estar à espreita de mulheres indefesas ou procurar uma oportunidade para roubar”. Por sorte, um dos policiais o reconheceu como um dos colegas de trabalho de seu filho. Foi liberado após receber uma saudação nazista.
Era angustiante que ele não tivesse permissão para se juntar ao grupo de jovens da sua idade. Mas eventos posteriores no verão de 1936 deram a ele "orgulho genuíno" de sua herança africana, segundo escritos que estão na Biblioteca do Congresso. Dois atletas negros norte-americanos chegaram às manchetes. O pugilista Joe Louis nocauteou o alemão Max Schmeling no primeiro round em uma revanche, mas o que enfureceu Adolf Hitler e o resto do partido nazista foi quando o atleta Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim.
Massaquoi, anos depois, conheceu Owens e Louis e agradeceu-lhes por permitirem que ele se orgulhasse da sua etnia e de si mesmo. Fez com que “andasse um pouco mais alto entre meus colegas naquele verão”, disse. O resultado daqueles jogos olímpicos - um “não-ariano” vencendo atletas alemães - não foi o que Hitler esperava.
Logo, o ditador começou a ter como alvo os negros. Fontes dizem que crianças “não-arianas” não tinham permissão para entrar em parques ou brincar em balanços enquanto professores judeus começavam a desaparecer das escolas. Massaquoi sobreviveu a tudo, incluindo quase ser recrutado pelo Exército Alemão quando a guerra começou, mas foi rejeitado após ser considerado "abaixo do peso".
Em meio ao ódio racial que enfrentou dos alemães, Massaquoi também sobreviveu aos bombardeios aliados de 1943 que arruinaram partes de Hamburg. Impedido de seguir uma carreira educacional ou profissional, Massaquoi trabalhou como aprendiz de maquinista enquanto seguia seu hobby - o boxe.
Quando a guerra acabou, ele tocava saxofone em diferentes casas noturnas em Hamburg e foi tradutor para as forças de ocupação britânicas até 1948. Em seguida foi à Libéria para se reunir com seu pai. Ele acabou se mudando para os Estados Unidos com um visto de estudante para estudar em uma escola de mecânica de aviação.
Morando em Chicago, Massaquoi foi convocado para o Exército dos Estados Unidos em 1951 e serviu como pára-quedista na 82ª Divisão Aerotransportada do Exército durante a Guerra da Coréia. Mais tarde, ele se tornou cidadão norte-americano, formou-se na Universidade de Illinois e começou uma carreira de jornalista.
Na nova profissão ele trabalhou pela primeira vez para a revista Jet antes de se mudar para a Ebony, onde acabou se tornando o editor-chefe de uma das publicações mais influentes para os afro-americanos. Por 40 anos, nessa lendária revista, ele entrevistou alguns dos afro-americanos mais proeminentes da época, incluindo os ativistas dos direitos civis Malcolm X e Martin Luther King, e depois Owens, Diana Ross e outras celebridades.
No final dos anos 1990, quando estava se aproximando da aposentadoria, ele decidiu contar sua história numa: “Destinado a Testemunhar: Crescendo como negro na Alemanha nazista”. O livro foi publicado nos Estados Unidos em 1999. Traduzido para o alemão, foi bem recebido na Alemanha, para surpresa do próprio autor. O sucesso fez com que a biografia fosse transformada em filme, em 2006, pela televisão alemã.
Antes da morte de Massaquoi, em janeiro de 2013, ele foi questionado sobre como ele sobreviveu ao reinado de terror de Hitler. Ele explicou em uma entrevista de 2001 citada pelo LA Times que, ao contrário dos judeus, os negros eram tão poucos em número que foram relegados a um status de baixa prioridade na fila dos nazistas para o extermínio.
Além do mais, “o rápido avanço das tropas aliadas deu a Hitler mais com que se preocupar do que Hans Massaquoi”, segundo a Biblioteca do Congresso.
Na era nazista, de 1933 a 1945, os alemães africanos estavam aos milhares. Empregados domésticos, estudantes, marinheiros e artistas do Ruanda, Burundi, Namíbia, Camarões, Togo e Tanzânia estavam presentes na Alemanha, disse Massaquoi uma reportagem da BBC. Com o tempo, muitos alemães africanos foram excluídos da educação e do emprego e não tiveram permissão para se relacionar com pessoas brancas. Alguns também foram esterilizados, enquanto outros foram enviados para campos de concentração.

Com efeito, embora os alemães negros não estivessem sujeitos ao extermínio em massa, como no caso dos judeus, ciganos e eslavos, eles também foram alvos, embora não da “mesma forma sistemática”, dizem os pesquisadores. Massaquoi morreu em 2013, aos 87 anos.
(*) Com agências
Hans-Jürgen Massaquoi (1926-2013).
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