top of page

A HISTÓRIA DE UM NEGRO ESCRAVIZADO QUE ESGANOU O "SENHOR" E PÔS FOGO NO DEBATE DA ABOLIÇÃO

  • Foto do escritor: TXV
    TXV
  • 13 de mai. de 2020
  • 6 min de leitura

RDD (*) - 13/Maio/2020


Oficialmente, no dia 13 de Maio de 1888 a escravatura do negro foi abolida no Brasil. Eis a história, supostamente verídica, de um homem que já não era escravo, mas continuou sendo escravizado e humilhado até que agarrou o braço chicoteador do patrão, apertou-lhe o pescoço e “estrangulou” a sociedade esclavagista.


Por Zíbia M. Gasparetto (**)



Demerval não aceitara a abolição, dizia-se roubado pelo governo, espoliado em seus direitos, lesado em seu patrimônio, uma vez que possuía muitos escravos. Contudo, havia que conformar-se. A custo Maria José tentava convencê-lo da inutilidade de sua atitude. [...] Por fim concordou, contratou o João como capataz da fazenda e também sua esposa.


[...] Uma das implicâncias de Demerval era com os negros. Não se conformava vendo-os trabalhar tendo que pagá-los. Maria José ajustara meia dúzia deles, ex-escravos da casa, que eram trabalhadores e lhes permitira morar nos casebres da fazenda. Ela pretendia derrubar a fazenda e construir pequenas choupanas para seus empregados. Demerval era contra. Guardava ainda a esperança de que esses negros libertos, pressionados pela miséria, voltassem a implorar ajuda e amparo para não morrerem de fome.


Dar-lhes casa, trabalho, era derrubar seus sonhos de vingança. Era premiá-los, depois da inaudita ofensa de terem conseguido a liberdade.


Havia um com o qual implicava mais do que com os outros. O Neneu, como era chamado, negro forte e de olhos muito vivos, pele tão escura que em seu rosto sobressaíam o branco dos olhos e a alvura dos dentes. Beirava os 25 anos, fora comprado aos 15 por alto preço, pela excelente qualidade do seu físico avantajado e de porte atlético. Trabalhador incansável, Neneu era de pouca conversa e orgulhoso. Não se curvava na bajulação nem se misturava com os demais. Fazia suas obrigações e afastava-se pelo mato ou nadava no rio.


Demerval não se conformava em pagar pelos seus serviços depois de tê-lo comprado mais caro do que os outros. Implicava com ele encarregando-o de pequenas tarefas desnecessárias, só para irritá-lo. O negro obedecia contrariado e seus olhos xispavam de quando em quando, revelando a raiva que o acometia.


Maria José percebia e procurava desviar a atenção do marido, sem conseguir. Ele fazia de propósito. Tudo quanto era servicinho desagradável em que pudesse evidenciar sua autoridade, Demerval mandava o Neneu.


Agradava-lhe perceber que, apesar de contrariado, o negro obedecia a ele. Ele mandava, satisfeito por evidenciar sua supremacia,


Foi o Bentinho que falou a Maria José sobre o assunto:


- A sinhá carece tomá providência. O Neneu num é manso. Anda raivoso e descontente. Talvez seja miór madá ele embora e ajustá otro.


Maria José sacudiu a cabeça:


- Não é justo. O Neneu trabalha por dois e comigo sempre se mostrou atencioso.


- Mas o patrão num gosta dele.


- Demerval sempre procura alguém para desabafar sua irritação, Se ele se for, arranjará outro. Isso passa, você verá.


Mas não passou. Nos dias que se seguiram Demerval mais e mais procurava estar onde Neneu estava, buscando pretextos para humilhá-lo. Maria José tentava afastá-lo, atraindo-o a outras atividades, contudo Demerval, teimosamente, continuava a perseguir o negro. Ela tentou demovê-lo.


- Se você não aprecia os serviços de Neneu, vamos mandá-lo embora. Ajustaremos outro.


- Esse negro me irrita. Paguei por ele alto preço e agora tenho que pagar-lhe pelos serviços, além da comida.


- Está decidido. Vamos despedi-lo, procurar outro.


- Não. Não antes de descontar um pouco o dinheiro que dei por ele. Vou fazê-lo trabalhar até cair. Vamos mandá-lo embora quando eu me considerar pago.


- Demerval, não é justo que o faça pagar pelas coisas que o contrariam. O Neneu não tem culpa pela lei que o favoreceu. É injusto persegui-lo dessa forma. Ele não é mais escravo. É um empregado e precisamos respeitá-lo.


Demerval deu o salto da cadeira, levantando-se irritado.


- Você está sempre contra mim. Deixe, que dos negócios cuido eu. Sei o que estou fazendo. Ridículo! Respeitar um negro como aquele!


- Espero que não venha a arrepender-se dessa tua atitude.


O marido olhou-a com raiva. Não ia ceder. E realmente não cedeu. Maria José, vendo suas investidas contra o negro, procurou suavizar a situação, conversando com o Neneu.


- Neneu, sei que você anda nervoso, descontente com seu patrão. Mas eu lhe peço paciência.


Os olhos do negro brilharam rancorosos. Maria José fixou-lhe o olhar sério e disse:

- Seu patrão é homem doente. Não sabe ainda compreender as coisas como são agora. Precisamos ter paciência com ele. Eu aprecio o seu trabalho e agradeço sua dedicação.


- Sinhá sabe que eu estou aqui para servir à vossa mercê.


- Sei, Neneu. Sei que é livre e não é obrigado a suportar maus tratos e pode ir-se embora se desejar.


- Se a Sinhá quer que eu fique, eu fico.


- Quero que fique, mas de boa vontade. Sem raiva do patrão. Que compreenda que ele é doente e muito nervoso.


- Sim, sinhá! Eu gosto da sinhá, que sempre me tratou bem. Não tenho família. Meus pais morreram. Seu João é homem bom de trato. Gosto daqui, mas o patrão não gosta de mim.


- Demerval anda contrariado, predeu muito dinheiro com a libertação dos escravos. Está aborrecido. Estou falando para que tenha paciência com ele.


Os olhos do negro brilharam estranhamente e ele nada disse. Arrancar dele aquelas palavras já havia sido de admirar.


Maria José passou a vigiar Demerval para que ele amenizasse seu trato. Era difícil, porquanto ele circulava sempre ao redor do negro, na plantação, encarregando-o de pequenos e desnecessários serviços para que ele se atrasasse na sua tarefa rotineira e precisasse trabalhar mais do que os outros. Neneu trincava os dentes de raiva, mas obedecia.


Certa tarde, Demerval ordenou ao Neneu que limpasse o depósito de lenha ao lado da cozinha e o enchesse novamente transportando a lenha que ele deveria rachar caprichosamente.


Demerval ia e vinha supervisionando o serviço, criticando o negro severamente. Qual criança caprichosa, Demerval desmanchava as pilhas de lenha e o mandava recolocá-las novamente alinhadas como ele queria, rigorosamente certas. Em dado momento, Neneu não se conteve e, propositadamente, deixou que uma das pilhas escorregasse e a lenha caísse sobre os pés de Demerval, que não conseguiu manter-se em pé, e foi ao chão vociferando enraivecido.


Quando conseguiu levantar-se arrancou o chicote que sempre trazia ao cinto e investiu para o negro que o olhava com um brilho furioso nos olhos.


- Maldito negro, vou ensiná-lo a me respeitar! Vai ver como se castiga um bandido como você!


Olhos arregalados, boca crispada pelo rancor, Demerval tentou chicotear o rosto do negro que, num gesto rápido, segurou-lhe o pulso e impediu-o de consumar a agressão.


Demerval, rubro de ódio e pelo esforço que fazia, tentou agarrar o negro gritando sua raiva, xingando-o duramente. Vendo que não conseguir livrar os braços das suas mãos fortes, Demerval vibrou-lhe violento pontapé nos órgãos genitais. Neneu ganiu de dor e num gesto firme, agarrou Demerval pelo pescoço e apertou, apertou. As mulheres da cozinha gritavam, o João correu apressado, tentando tirar o Neneu de cima de Demerval.


- Larga, Neneu, você mata o homem!


Demerval parecia um boneco manejado pelos braços fortes do negro. De repente, Neneu largou e saiu correndo, sumindo no mato. João afrouxou as roupas de Demerval, tentou reanimá-lo. Era tarde, porém. Demerval estava morto.


[...] O caso de Demerval provocara grande escândalo na província e os jornais noticiaram em manchetes seu assassinato. O quadro da viúva com quatro filhos menores era motivo de revolta para os conservadores e escravocratas, considerando perigosa a liberdade dos negros. Por outro lado, os liberais e abolicionistas lamentavam o fato, afirmando que a exploração dos negros, vistos como animais, mantidos ignorantes e sob duros castigos, os embrutecera e colocara na condição de degradação em que se encontravam.


Os primeiros clamavam pela volta da escravidão, punindo com a morte os negros faltosos. Os segundos clamavam pela educação, devolvendo àquele povo sofrido e maltratado sua dignidade de ser humano. Todos, porém, a seu modo, interpretavam o fato lamentável.


[...] O chefe de polícia garantia que havia movimentado seus homens na captura do negro, sem ter ainda conseguido nehuma pista. Ele havia sumido. Ninguém o vira. Apesar disso, não desistiriam, afirmava ele. Esse negro haveria de de ser preso e justiçado como exemplo.


[...] Todos concordavam que os negros não estavam preparados para a liberdade e, por essa razão, as tragédias, os saques, os roubos, as agressões sucediam-se. A polícia não tinha condições de dar proteção a todos, principalmente nas fazendas ou locais afastados. Mesmo os que eram contra a escravidão achavam que a maneira como ela fora feita havia sido errada.


-------------------------------------------------------------------------- (*) Título e primeiro parágrafo: Repórter da Diáspora (RDD). (**) Episódio do capítulo XV do romance mediúnico “Espinhos do Tempo”, pelo espítito de Lúcius. Assim, na visão dos kardecistas, trata-se de uma história verdadeira.

Comments


ÚLTIMAS

bottom of page