70 ANOS DE TV NO BRASIL: RUTH DE SOUZA PRIMEIRA ESTRELA NEGRA BRILHOU POR TRÁS DE UM “BLACKFACE”
- TXV
- 18 de set. de 2020
- 2 min de leitura
TXV (*) – 18/setembro/2020

Ruth de Souza com Sérgio Cardoso (branco pintado de preto), em 1969. E em baixo a direita uma das últimas imagens antes da estrela se apagar, no ano passado.. Uma figura com lugar cativo na história da TV no Brasil.
No final da década de 1960, Sérgio Cardoso era o ator mais aclamado do País. Ele se tornou a escolha óbvia do principal patrocinador da novela das 19h A Cabana do Pai Tomás, baseada no romance da escritora norte-americana abolicionista Harriet Beecher Stowe, para viver o protagonista. A trama estreou na Globo há exatos 50 anos.
Para compor o escravo do título, que luta pela liberdade dos negros, Cardoso, que era branco, tinha o rosto e partes do corpo maquiados de preto, usava peruca de cabelos crespos e pedaços de rolha para alargar as narinas. Houve forte reação ao blackface – execrável prática teatral na qual artistas brancos se pintavam para imitar negros de maneira caricata.
A principal personagem feminina de A Cabana do Pai Tomás era a também escrava Tia Cloé. Influente, Sérgio Cardoso indicou a atriz para o papel: Ruth de Souza. E assim a atriz entrou para a história como a primeira negra a estrelar uma telenovela brasileira.
Na época, ela estava com 48 anos e enfrentou o protesto de algumas atrizes brancas do elenco que se sentiram desprestigiadas por ter menos destaque que uma negra. Esse episódio representa a luta de Ruth de Souza – e dos atores negros em geral – para conquistar espaço na televisão.
A atriz que agora recebe merecidas homenagens póstumas já havia sido pioneira antes: foi a primeira atriz brasileira a ser indicada a um prêmio de cinema internacional (o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1954, pelo filme Sinhá Moça), a primeira negra a se apresentar no prestigiado palco do Teatro Municipal do Rio, em 1945, e a primeira brasileira a estudar atuação e direção na Universidade Harvard e na Academia Nacional de Teatro, nos Estados Unidos.
A trajetória desbravadora de Ruth de Souza permitiu que hoje, apesar de o racismo ainda resistir na indústria do entretenimento, os artistas negros serem mais respeitados e reconhecidos.
A elegante dama das artes, que saiu de cena aos 98 anos, trilhou seu caminho com leveza, sem discursos radicais ou polêmicas. Foi derrubando os muros do preconceito usando unicamente a inteligência, o talento e o carisma.
(*) Com Terra.com.br /Jeff Benício - 29/julho/2019
Comments