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POLÍTICA

COMO UM GRUPO POLÍTICO DE ESQUERDA - O MPLA - ASSALTOU A ECONOMIA DE ANGOLA E CRIOU UMA ELITE DE BILIONÁRIOS

José Eduardo dos Santos, o ex-presidente de Angola, e sua filha, Isabel dos Santos, transformaram o rico país africano numa espécie de “grande cofre” particular. O governo angolano tenta agora tomar os bens.

Irapuan Costa Junior(*) – 01/novembro/2020

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O livro " A 'Dos Santos Company' - História de uma pilhagem em Angola",  narra o roubo promovido pelo ex-presidente Jose Eduardo dos Santso e sua familia,

A jornalista francesa Estelle Maussion foi, de 2012 a 2015, correspondente em Angola da Agence France-Presse (AFP) e da Radio France Internationale (RFI). É impossível, para qualquer pessoa vivendo em Angola desconhecer ou não se estarrecer com o enriquecimento da família do homem forte do país por quase quatro décadas, José Eduardo dos Santos.

 

 

Esse enriquecimento desperta mais a atenção por dois fatos: a figura mais proeminente da família do ditador esquerdista é sua filha mais velha, Isabel dos Santos¹ (de quem já falamos outras vezes aqui na coluna), aquela que em pouco tempo se fez a mulher mais rica da África e de Portugal, detentora de uma fortuna de 3 bilhões de dólares; e ser Angola um país rico em petróleo e diamantes, mas onde persiste a miséria da população, cuja renda é de apenas 2 dólares por dia em média, mesmo após quase meio século da independência.

A jornalista colheu informações durante seus quase quatro anos em Angola, e nos quatro anos seguintes, já fora do país, dele não se desligou. Acompanhou a evolução política angolana, que redundou na saída em 2017, apenas aparentemente pacífica, de José Eduardo dos Santos da “Presidência”, e na subida de seu companheiro de partido (o MPLA — Movimento Popular pela Libertação de Angola), João Lourenço.

 

Estelle Maussion seguiu, passo a passo, a surpreendente investida de João Lourenço contra a corrupção, vale dizer, contra a família do antecessor. A jornalista acabou por publicar, em fins de 2019, um livro sobre o atrativo assunto, pela editora parisiense Karthala. O título do livro é: “La dos Santos Company — Mainmise sur l’Angola” (“A Empresa dos Santos — Domínio sobre Angola”).

 

Estelle Maussion começa seu livro com uma descrição do clã José Eduardo dos Santos: o patriarca, a segunda figura, a filha mais velha Isabel (e seu apêndice, o marido congolês Sindika Dokolo, cujo pai enriqueceu à sombra de outro ditador, Mobutu), os outros filhos, a mulher, Ana Paula. E o general Helder Vieira Dias, apelidado Kopelica, que não é da família, mas é como se fosse. Próximo de José Eduardo desde a guerra da descolonização portuguesa, é competente, negociador e corrupto.

 

Kopelica tem, no governo de José Eduardo, domínio sobre a Polícia e o Exército, e, se é negociador, sabe também ser duro, acusado, entre outras coisas, de eliminar oponentes incômodos.

 

A jornalista traça a seguir a trajetória de José Eduardo: estudante de engenharia entre 1963 e 1969 na União Soviética (onde conheceu e se casou com uma russa, Tatiana Kukanova, mãe de Isabel), combatente entre 1970 e 1975 contra o colonizador Portugal, lugar-tenente de José Agostinho dos Santos, um dos dois principais líderes pela libertação de Angola (outro era Jonas Savimbi, chefe da União Nacional pela Independência Total de Angola — Unita). Conta como, após a independência (em 1975) Agostinho Neto se torna o primeiro presidente angolano e como, com a morte deste, em 1979, José Eduardo dos Santos assume a Presidência.

 

O MPLA sempre teve o apoio da União Soviética e de Cuba. A Unita o apoio dos EUA e da África do Sul. Após a Independência, com o MPLA, isto é, a facção comunista no poder, Jonas Savimbi continua a luta, mas abandonado pelos EUA, acaba por ser derrotado e morto em combate, em 2002.

 

José Eduardo dos Santos consolida seu poder, passa gradualmente a governar com a família, e apoiado no nepotismo faz a fortuna de seu clã, cada vez mais abertamente.

 

Nos seus últimos dez anos de governo enfrenta resistência popular, reprimida com força e tem também resistências no seio do MPLA, partido da situação e seu próprio partido. Acaba por ceder o governo a João Lourenço, em 2017, mantendo a presidência do MPLA.

 

José Eduardo dos Santos julga que isso seja o bastante para que se esqueçam os avanços de sua família sobre o dinheiro público. Subestimou a disposição do sucessor em atacar a corrupção. João Lourenço demite Isabel dos Santos do comando da Sonangol, a Petrobrás de lá, que ela dirigia como se fosse propriedade familiar, demite seu irmão José Filomeno (Zenu) da presidência do Fundo Soberano de Angola, abre processos contra os filhos de José Eduardo (Zenu se encontra preso, condenado a cinco anos de cadeia por corrupção) e busca, junto com o governo português, repatriar os recursos públicos que Isabel dos Santos (que não volta a Angola temendo ser presa, e reside entre Londres e Dubai) desviou para Lisboa, onde comprou várias empresas, inclusive o banco BIC Portugal. Tenta por outro lado recuperar os recursos alegadamente desviados da estatal dos diamantes, a Sodiam, por Isabel dos Santos. Esse o quadro que fecha o livro de Estelle Maussion.

 

A ONIPRESENTE ODEBRECHT

Para que se tenha uma ideia ainda mais completa da corrupção angolana, e complementando o livro da jornalista francesa, examine-se um acontecimento recente, deste mesmo mês de outubro (reportagem de outra jornalista, Dulce Neto, do jornal lisboeta “Observador”): os dois generais mais ligados à família de José Eduardo dos Santos, Kopelica (Helder Vieira Dias) e Dino (Leopoldino Fragoso do Nascimento) foram ambos indiciados em processo da Procuradoria-Geral de Justiça de Angola, e entregaram ao Estado angolano bens que controlavam, valendo a bagatela de 1 bilhão de dólares, constituídos, restam pouquíssimas dúvidas, com desvio de dinheiro público. Parte pertenceria a eles, fala-se, e parte a familiares de José Eduardo dos Santos, que ocultariam como testas-de-ferro.

 

Entre os bens estão uma fábrica de cimento (CIF Cement), uma indústria de cerveja (CIF Lowenda), uma rede de supermercados (Kero), uma montadora de veículos (CIF CGS), uma indústria gráfica (Damer), cerca de 1.000 imóveis e, vejam bem, leitores: uma usina açucareira (Biocom), de que a nossa conhecida Odebrecht detém 40% das ações, algo não noticiado por nossa imparcial “grande imprensa”. Pergunta para os leitores: como terá a Odebrecht entrado no negócio? Com a influência de que político ou políticos brasileiros? Qual o papel do BNDES nisso, que ninguém investiga?

 

Tudo isso faz com que nos lembremos de Lord Acton: “Se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Pelo menos vale para as esquerdas no poder, a nossa inclusive.

(*) jornalopcao

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